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Capítulo 16

A Feira de Poções Mágicas.

5 de dezembro

Estou de férias! O que significa passar meus dias fadada a aguentar os abraços esmagadores e os gritos da minha irmã.


Trix adora acordar cedo e pular na minha cama. Quando eu finjo que não estou ouvindo (uma técnica muito eficiente, inclusive), ela abre a janela para o sol entrar. O que dói, muito. E termina comigo correndo atrás dela pela casa, enquanto ela ri de um jeito tão agudo que não sei como as janelas não quebram.


E o pior de tudo? Sou sempre eu que levo bronca. Estou começando a achar que não existe vantagem nenhuma em ser a filha mais velha.


Como se isso já não fosse suficiente, ainda me fizeram levar Trix para o Festival de Poções, no centro da vila.


Combinamos com Estela e Kai de chegar no final da tarde, um horário que o sol já me permitisse andar livre pela feira.


Quando chegamos, parecia que a cidade inteira tinha tido a mesma ideia. A feira estava lotada, cheia de barracas de poções mágicas e artefatos espalhados por todos os lados, com cores, brilhos e cheiros que se misturavam de um jeito quase hipnótico.


A primeira barraca que vimos tinha um letreiro enorme escrito:


Tenda de poções



As poções deveriam ser verificadas pela D.D.C.P.F (Departamento Duende de Coisas que Provavelmente Funcionam) , que coloca um selo de qualidade em tudo. E eu duvido muito que qualquer uma daquelas tivesse passado por esse tipo de fiscalização.


Papai achava isso uma grande besteira até o dia em que comprou uma poção para crescer cabelo com um elfo na rua.


Resultado: acabou ganhando um chifre de unicórnio bem no meio da testa.


Mamãe quase desmaiou de tanto rir.


— Olha essa! — Trix puxou meu braço antes que eu pudesse sugerir irmos para qualquer outro lugar menos duvidoso. — Poção Espirro Mágico! 


— Por que você iria querer sair por aí espirrando purpurina e glitter?— respondi.

 

— Ia ser lindo!


Antes que eu pudesse impedir, ela já estava com um frasco na mão, de um líquido rosa que borbulhava.


— Eu não beberia isso — murmurei.


— Você nunca faz nada divertido.


O vendedor sorriu para nós e apontou uma estante cheia de poções mais estranhas ainda.


poções


— Promoção especial! — disse ele. — Leve duas poções e ganhe uma surpresa!


— Surpresa tipo “seu cabelo vai cantar”? — perguntei.


— Surpresa tipo surpresa. — ele respondeu com um sorriso duvidoso.


Arrastei Trix para fora antes que ela decidisse testar a teoria do cabelo cantor, e seguimos para a próxima barraca, onde vendiam rosquinhas explosivas. Por algum motivo que agora me parece um erro gigantesco, resolvi encher minha irmã de chocolate.


Resultado: ela passou o resto da noite grudada em Estela, pedindo para ela mostrar a cauda de sereia e fazendo um milhão de perguntas sobre a vida no mar.


Trix e Estela


Estela, coitada, só piscava lentamente, como se estivesse reconsiderando todas as escolhas que a levaram até ali…


Quando já estava quase na hora de irmos embora, Kai decidiu passar em uma barraca que vendia artefatos mágicos para dragões, então nós fomos até a praça central esperar por ele.


No meio da praça havia uma estátua enorme do rei que, para falar a verdade, não retratava nem um pouco a realidade.



Rei Alipius Magnolius


Trix estava sentada ao pé da estátua, distraída com o cadarço do tênis, quando algo ao lado do pé dela chamou minha atenção.


Era uma mensagem riscada à mão por alguém que claramente não simpatizava com a realeza na base da estátua. Era quase imperceptível. Eu provavelmente nem teria notado se as palavras não fossem familiares.


Quando me aproximei li:


Mensagem


— O que é isso? — murmurei, sentindo um arrepio subir a espinha.


Estela se aproximou, tão confusa quanto eu. Ficamos encarando as palavras por um tempo até que Kai apareceu. Ele ficou tão intrigado que acabou derrubando o milk shake de Mirtilo Cantante no chão.


— Rainha que uiva… Isso é muito específico para ser coincidência. — ele começou a andar de um lado para o outro, passando a mão no cabelo como se estivesse montando um quebra-cabeça invisível.


— Por que escreveriam isso na estátua do Rei Alípius? — perguntei, me aproximando da pequena placa metálica presa ao pedestal.



Estatua rei alipius



— É claro… a Batalha dos Ecos! — Kai exclamou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.


— Batalha dos Ecos? — repeti, tentando soar casual, embora estivesse um pouco envergonhada.


Eu provavelmente deveria saber disso. Mas, para ser justa, nunca fiz muita questão de estudar a história dos bruxos.


— Não é a batalha que definiu que todos os reinos passariam a obedecer ao rei dos bruxos? — Estela disse, ainda encarando cara de berinjela do Rei Alípius esculpida na pedra.


— Sim. Depois da rebelião das criaturas… digo, dos outros reinos. — ele corrigiu ao perceber meu olhar de reprovação. — Os bruxos assumiram o controle para manter a paz. 


— Paz para os bruxos, só se for… — Estela completou, quase como se tivesse lido meus pensamentos.


Ficamos ali por um tempo encarando aquela estátua com nariz de berinjela… 


Agora, pergunto a você, incherido que está lendo meu diário: Se tudo isso fosse realmente sobre paz…por que alguém precisaria escrever aquilo escondido?



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