Capítulo 15
A Corrida de Dragões
1 de dezembro
Não, nós não contamos a ninguém sobre a bola de cristal em pedacinhos na sala do Professor Aurélio. A diretora Maldona andou pelos corredores cuspindo fogo no dia seguinte.
Pode me julgar o quanto quiser, mas não está nos meus planos passar as férias caçando gnomos como punição. Kai e Estela, por outro lado, parecem muito mais interessados em desvendar aquela tal “profecia” do que eu esperava. De acordo com eles, se o Recuperador jogou a Bola de Cristal na minha direção, é porque obviamente ele pertencia a mim.
Eu tentei argumentar que o Recuperador estava com defeito — afinal, eu me lembraria se aquela bola de cristal fosse minha. No entanto, segundo Kai, a criação dele é “absolutamente à prova de falhas”, o que só torna tudo ainda mais preocupante.
Agora que Kai e Estela sabem sobre a minha família, eles vivem aparecendo aqui em casa. Papai fez pão de lua pra gente e, depois de muito insistirmos, deixaram que eu fosse com eles para a corrida de dragões do Kai. Ele vem falando dessa corrida há dias — já estava ficando irritante. Mas, depois de ver, eu entendi.
Os irmãos do Kai competem todos os anos e estão quase conseguindo uma vaga na liga profissional. Essa foi a primeira vez que ele competiu.
Quando chegamos ao estádio, parecia Dia das Bruxas de novo. Haviam bruxos por todo lado e, embora não fosse um evento exclusivo, os olhares que recebíamos deixavam bem claro que não éramos exatamente bem-vindos.
A mãe do Kai foi abrindo caminho entre a multidão, segurando nossa frente como um escudo ambulante. E, a cada olhar torto, a cada cochicho mal disfarçado, ela dizia com um sorriso:
— Educação é corrigível, mas a feiura de caráter é permanente.
Eu quase ri. Quase. Quanto mais a gente avançava, mais pesado o ar ficava. Os cochichos aumentavam e as pessoas paravam de conversar quando passávamos.
Quando nos sentamos nas cadeiras, Kenai e Kairo já estavam nos esperando. Eles seguravam luvas enormes que imitavam patas de dragão com o rosto do Kai estampado nelas.
— Vamos, maninho! Não nos decepcione! — gritaram em uníssono.
— Que droga é essa que ele está vestindo? — Kenai entortou o nariz.
Kai estava usando uma armadura de couro com algo enrolado na parte de trás. Era tudo menos estiloso comparado com os uniformes dos outros participantes.
— Devo lembrar vocês da primeira vez que correram? — Sra. Verdasco respondeu. — Quando incendiaram as próprias calças e o traseiro de vocês ficou estampado no jornal do reino por dias?
Tive que segurar a risada.
— Tá legal, mamãe. Não precisamos relembrar os dias sombrios.
Eu nunca tinha visto dragões tão de perto. Eles eram muito maiores do que eu imaginava. Avistei Kai ao lado de um dragão de escamas verde-azuladas. Ele era menor que os outros. Havia um, porém, que chamou ainda mais a minha atenção. Era vermelho e preto, a cara tão feia que parecia ter saído direto do Vale dos Ecos. Quando vi quem estava montado nele, senti vontade de ir embora.
Draven Cabeça-de-Bagre. Ele usava uma armadura com chifres, parecendo um viking mal-humorado.
Quando foi dada a largada, eu mal consegui acompanhar. Os dragões dispararam tão rápido que o ar ao redor deles virou uma rajada de vento — Alho quase foi arrancado do meu ombro.
Mesmo sendo menor, o dragão do Kai era rápido. Ele desviava dos obstáculos de pedra com uma facilidade que parecia até injusta para os outros.
Eu tive certeza de que ele iria ganhar quando os outros dragões tentaram atravessar os arcos de fogo e falharam miseravelmente. Um por um, foram caindo. Kai tomou a frente e só restava mais um dragão na corrida.
E adivinha qual? Draven Cabeça-de-Bagre.
Ele estava tão bravo que parecia que o fogo saía da boca dele — não do dragão.
A última prova quase fez minha alma sair do corpo. Kai e Draven subiram lado a lado, cada vez mais alto… tão alto que tivemos que usar binóculos para enxergar.
— A última prova é a Queda da Morte! — gritou Kairo.
Queda do quê?!
Estela apertou meu dedo com tanta força que achei que ia quebrar. Até o Alho cobriu o rosto com as asinhas.
Quando chegaram às nuvens…os dragões despencaram.
Kai era mais leve, e seu dragão se dobrava no ar com tanta precisão que pareciam uma flecha cortando o vento. Pelo jeito, Draven percebeu isso também. No instante seguinte, o dragão dele avançou contra o de Kai. Tudo aconteceu rápido demais.
Kai perdeu o equilíbrio…e caiu.
Ele começou a rodopiar no ar, direto em direção ao chão. Os gritos vieram de todos os lados. A Sra. Verdasco parecia prestes a desmaiar de tanto gritar.
Eu fechei os olhos. Pronta para ouvir meu novo melhor amigo se espatifar no chão. Mas então…ouvi palmas.
Palmas?
Abri os olhos e você não vai acreditar. Kai estava voando. Com asas!
— ESSE É MEU GAROTO! — gritou a Sra. Verdasco, quase pulando.
— E você zoando a roupa nova dele! — Kairo deu um tapa no braço de Kenai. — O garoto sabe construir uma bugiganga!
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, o dragão de Kai mergulhou e o pegou planando no ar. No segundo seguinte, eles atravessaram a linha de chegada.
Draven ficou furioso. E, sinceramente? Só isso já fez o meu dia valer a pena!